Há quem só tenha olhos para a dominação ostensiva e agressiva, aquela que diz "NÃO" e tem o punho cerrado voltado contra aqueles que ousam se rebelar. Mas há modos muito mais sutis e sofisticados de dominar. Seria impossível dominar uma população inteira na base do grito e do punho, mas é bem mais simples dominar pequenos grupos ou mesmo grupos maiores, desde que se consiga que a maioria contribua com isso. Os gays deveriam saber bem disso porque sabem bem que não são necessárias leis e cacetetes para intimidar, cercear, coibir. Quando se consegue que os olhares se voltem cheios de reprovação contra alguém, se ganhou muito mais do que se conseguiria com uma ameaça explícita. Quando se consegue que indivíduos e grupos inteiros internalizem a ameaça, ela não precisa mais ser repetida a todo momento. Consegue-se, na verdade, bem mais do que isso. Com o tempo, consegue-se que esses indivíduos e grupos reconheçam a coação como normal e mesmo aceitável. Passam a não só se comportar como se gostaria que eles se comportassem, mas passam mesmo a considerar que é assim que se deve ser, que os outros têm o direito de repreendê-los ou reprimí-los quando se conduzem de outro modo. É preciso muito mais esforço para mudar isso do que para abaixar os punhos que se erguem contra nós. Por isso mesmo, é estranho, muito estranho, que os gays não vejam quando outras formas de dominação se impõem; mais ainda, quando o fazem com o apoio de muitos gays.
Quando se cria um clima onde algo que, apesar de não ser legalmente proibido, se torna quase impossível de se fazer por conta da pressão exercida pela reprovação geral, sorrateiramente se conseguiu dominar essa prática. O mesmo vale para pensamentos e opiniões. Vemos isso todos os dias, e o número de práticas e pensamentos afetados cresce a cada vez. Vemos isso em relação ao uso do cigarro, da obesidade, e, em terras tupiniquins, também com relação a certas opiniões políticas. Mas sabe-se muito bem que, quando não se pretende um real embate argumentativo e quando a tolerância é apenas uma palavra que povoa os lábios, mas que se acha bem longe do coração, mais vale gritar por aí que seus opositores são "atrasados", "irracionais", que eles "não têm amor próprio", ou coisa que o valha, do que respeitar a pluralidade de opiniões e modos de vida. Será que nós, que conhecemos bem de perto esse tipo de dominação, que o sentimos na carne e na alma, ficaremos cegos quando ele insidiosamente atinge campos muito mais vastos do que o do comportamento sexual e afetivo?

